Bits to Brands #145 | Um papo com o Orkut

O que ele tem a dizer sobre o passado, presente e futuro das redes sociais

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Tempo de leitura: 10 minutos

“Eu gostaria que as empresas usassem o poder da tecnologia para otimizá-la para felicidade e proximidade. Não para dinheiro ou acionistas ou anunciantes ou para marketing. As empresas deveriam usar o poder da tecnologia para otimizá-la para felicidade e proximidade.”

Essa foi uma das últimas frases de Orkut Büyükkökten, quase 1h de conversa depois. Ela abre a edição de hoje não para estragar o final, e sim para te convidar a acompanhar esse papo desde o início.

Teve (muita) nostalgia de tempos mais simples e mais felizes na primeira rede social que a gente conheceu. Teve uma visão crítica sobre o impacto das redes sociais e muita reflexão sobre o que significa criar comunidades, vinda de alguém que baseia todos os seus projetos nesse conceito.

Teve até fofoca por depoimento e o significado por trás da famosa feature “100% sexy, legal e confiável”.

E ao fim, teve a certeza de que a internet vai seguir evoluindo junto com a gente. Mas enquanto seguirmos humanos, seguiremos nos reunindo em torno de interesses em comum. Seguiremos buscando criar conexões e formar comunidades.

O que a gente precisa é de tecnologias que potencializem isso.


Te convido a ler na íntegra, mas caso queira ir direto para algum assunto:
- Sobre os tempos e o legado do Orkut.com
- Sobre a internet hoje e o seu novo projeto, Hello.com
- Sobre comunidades
- Sobre responsabilidade

Sobre os tempos e o legado do Orkut.com

👩🏻‍💻 [BITS] Por que você acha que o Orkut ainda inspira tantos sentimentos e tanta nostalgia?

💡 [ORKUT] Orkut.com era um lugar muito feliz e positivo. (…) Ele aproximou as pessoas em um ambiente seguro em que elas podiam se expressar e ser quem são. Uma grande parte disso eram as comunidades. Dezenas de milhares de comunidades foram criadas por nossa base de usuários, e isso criou um lugar fantástico e seguro para as pessoas se conectarem e se relacionarem.

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👩🏻‍💻 Qual você acredita ser o maior legado do Orkut para as redes sociais de hoje?

💡 Acho que seu maior legado foi aproximar o mundo. Tinha mais de 300 milhões de usuários em todo o mundo. São tantas histórias boas que saíram disso - as pessoas encontraram seus melhores amigos, se apaixonaram, se casaram e tiveram filhos.. São muitas as amizades que são a base do Orkut, e elas continuam até hoje.

👩🏻‍💻 E quando o assunto são features, uma das mais lembradas é aquela em que você poderia ser “100% confiável, legal e sexy”. Quais são os aspectos mais confiáveis, legais e sexy do Orkut.com, e é possível encontrá-los em outras plataformas hoje?

💡 As redes sociais hoje são um lugar muito diferente.

Seja no Twitter, Instagram ou Facebook, você tem um feed e nele recebe atualizações de seus amigos. Você vê suas férias fabulosas ao redor do mundo ou os casamentos maravilhosos que eles frequentam. São sempre momentos de "olhe para mim". Mas se você pensar no Orkut.com, ou no que estamos trabalhando agora, Hello, é tudo sobre os outros.

Com o Orkut.com, tivemos uma experiência que amplificou interações positivas, como elogiar uns aos outros. É para isso que a feature do “confiável, legal e sexy” existia. (…) Outra feature eram os depoimentos! As pessoas adoravam escrever e receber depoimentos, porque era um reforço positivo sobre alguém, ou sobre uma amizade.

👩🏻‍💻 (saindo do roteiro) Não sei se isso era algo que vocês observavam, mas eu e meus amigos usávamos depoimentos para falar sobre coisas que não queríamos que ninguém soubesse. A gente escrevia depoimentos com uma frase que dizia “NÃO ACEITA”, e eu lembro que as melhores fofocas vinham de pessoas que aceitavam depoimentos sem querer…

💡 Eu soube dessas histórias! Tipo alguém escrever “eu estou traindo a minha namorada, o que eu faço?” e a outra pessoa aceitar sem querer. Eu já ouvi essas histórias. Elas são muito boas.

👩🏻‍💻 Quando você soube que estava acabando? Existe algum sinal que indica o fim de uma rede social?

💡 Eu acredito que as coisas estão mudando constantemente. Quando olhamos para as redes sociais, houve uma grande mudança em termos de comportamento do consumidor e infraestrutura e tecnologia. Antigamente, as pessoas costumavam ter desktops e navegadores para se conectar à internet. Era assim que nos conectávamos. Não tínhamos smartphones. Os recursos eram muito limitados.

No momento, temos uma geração muito diferente, que está online, sempre conectada e muito familiarizada com a tecnologia. Então, em vez de estar em uma rede social, eles estão em várias redes sociais.

Acho que é muito importante ter uma noção de para onde as coisas estão indo. Ser sensível ao mercado, à tecnologia e à base de usuários. Às vezes, você vê mudanças acontecendo e precisa se adaptar rapidamente. Se não o fizer, isso pode ser o seu fim.

O Orkut.com foi criado para uma sociedade em que as pessoas começaram a se conectar e em que as redes sociais ainda não existiam. E agora temos uma geração totalmente diferente. Todos têm smartphones e são fotógrafos.

Sobre a internet hoje e o seu novo projeto, Hello.com

👩🏻‍💻 Sobre o seu novo projeto, Hello.com: você o considera um próximo passo em relação à sua experiência anterior? Ou a ideia era criar algo do zero? Por que você acredita nele como um produto para a internet de 2021?

💡 As redes sociais mudaram muito na última década. Hoje elas vêm causando depressão, ansiedade, desconexão e problemas de saúde mental. Eu vi essa tendência de queda nas mídias sociais e como isso afeta as pessoas e a sociedade. É por isso que decidi começar a trabalhar no Hello.com.

Se você olhar para as empresas de mídia social hoje, eles se sentam em uma sala de conferências e fazem uma análise de custo-benefício do que devem fazer. E as decisões que são tomadas, muitas vezes [elas são] sobre marketing, anunciantes, corporações, acionistas. Não se trata dos usuários.

Lembro-me da época do Orkut.com, quando pensávamos em novos recursos ou novas tecnologias. Era sempre sobre "como podemos tornar a experiência mais positiva? Como podemos aproximar as pessoas? Como podemos amplificar a experiência incrível de conectar pessoas?"

E se observar como as empresas hoje usam a tecnologia, você verá que existe uma quantidade absurda de machine learning incorporada aos algoritmos que cobrem todos os recursos que usamos. Mas tudo isso é otimizado para anunciantes, para engajamento. Como resultado, isso não está criando uma melhor experiência do usuário, mas sim uma experiência em que as pessoas se tornam mais viciadas e menos sociais.

Se eu olhar para os dias do Orkut.com, ele tinha uma comunidade enorme e impactou a vida das pessoas.

Na última vez em que estive no Brasil, conversei com um jornalista que morava em uma cidade pequena. Desde cedo ele sabia que era gay, mas não tinha amigos gays e não sabia como se conectar. Aí ele entrou no Orkut e conheceu comunidades LGBT no Brasil em que se sentiu amado, conectado, fez amigos. Ele me disse que o Orkut salvou a vida dele.

É importante usar a tecnologia para aproximar as pessoas. Isso é o que fazemos com Hello. Cada decisão técnica e de design que tomamos, cada recurso, é tudo sobre amplificar experiências positivas e reunir as pessoas em torno de união, comunidades, amor. Todas as coisas que nos tornam humanos e pelas quais vale a pena viver.

Sobre comunidades

👩🏻‍💻 O Orkut.com era sobre comunidade. Era uma rede social baseada não no conteúdo que criamos sobre nós mesmos, mas na interação por interesses em comum. Você acredita que esse senso de comunidade se perdeu? Existe uma maneira de recriá-lo?

💡 Sempre há algo em comum que nos aproxima. E quando você está falando com alguém, quando você tem algo para compartilhar, isso se torna o ponto de partida para construir confiança e relacionamentos ao longo do tempo.

Quando vejo as comunidades online hoje, muitas delas parecem grupos. Elas não parecem comunidades.

Existem plataformas que fornecem recursos de "grupo". Um em particular é NextDoor - é um aplicativo muito popular e é chamado de aplicativo de construção de comunidade, porque é tudo sobre sua localização geográfica. Mas quando você pensa sobre o que as pessoas realmente compartilham, é se tem um animal de estimação perdido na sua vizinhança, se teve um crime, se tem um novo restaurante... Não há uma comunidade lá.

Os bairros podem aproximar as pessoas. Se há um novo filme chegando, por que não fazer um evento para as pessoas irem ao cinema juntas? Se você gosta de sushi e um novo restaurante abriu, por que não ir dar uma olhada? Esse aspecto da comunidade está faltando.

E se eu olhar as comunidades no Hello ou antigamente no Orkut.com, as pessoas se esforçaram não apenas para compartilhar, mas também para aprender mais umas sobre as outras e sobre a comunidade. Isso tornou a experiência mais divertida. Muitas vezes, essas interações transcendem para experiências off-line, pessoalmente.

Acho que as redes sociais devem nos tornar mais sociais na vida real. Eles devem nos aproximar e facilitar a aproximação das pessoas em lugares físicos. Portanto, se você tem um time de futebol favorito, pode ir a um grupo e falar sobre os jogadores de futebol. Mas é mais interessante assistir a um jogo juntos. Trata-se de experiências compartilhadas, não apenas de uma conversa.

👩🏻‍💻 Esse ponto é muito interessante - sobre como existem grupos de pessoas com interesses em comum, mas eles frequentemente são baseados em favores e o que você precisa das pessoas, versus um interesse genuíno em compartilhar e interagir.

💡 É transacional. E muitas das relações na nossa vida real também estão se tornando cada vez mais transacionais. (…) Estamos tão acostumados a esperar gratificação instantânea: likes, comentários, que nós achamos que o nosso valor vem do número de seguidores ou curtidas que temos.

Mas o nosso valor como pessoa não tem nada a ver com a nossa presença nas redes sociais. Nem com seguidores ou curtidas. Nós esquecemos a essência de ser humano, do que faz alguém especial, alguém se destacar: é o papel que se tem na sua comunidade.

É sobre relações, amizade, apoio e quem se é - e não sobre a sua representação nas redes sociais.

Sobre responsabilidade

👩🏻‍💻 Quando o assunto são redes sociais, ética sempre será uma questão. Do ponto de vista do criador e da sua experiência, como isso influencia as decisões da empresa e do produto? Você leva em consideração o impacto que uma característica específica pode ter na sociedade como um todo ou na vida individual das pessoas ao construí-la?

💡 Com certeza.

A tecnologia mudou bastante na última década. Antigamente, a criação de produtos e serviços envolvia uma bela experiência do usuário, seja um hardware ou uma mídia social. Se eu olhar para os aplicativos de hoje, é tudo sobre como posso conseguir o maior número de usuários, como posso ser um unicórnio, como posso ganhar muito dinheiro.

Se você está em uma sala de reunião discutindo uma decisão, deve pesar os prós e os contras. Se você tem um recurso que por um lado pode ser prejudicial à saúde mental, mas por outro pode aumentar nossa receita em 20% - que decisão você toma?

Você não pode dar valor à vida humana, à saúde mental. Todas as decisões que você toma devem ter embasamento ético. Vimos isso acontecer com as eleições. Houve um grande impacto das redes sociais, nos Estados Unidos e no Brasil. As empresas precisam estar conscientes sobre as notícias falsas e a disseminação de informações e o que isso faz à sociedade.

No momento, estamos tendo um problema semelhante com a vacinação da COVID. Não há dúvida de que milhões de pessoas estão morrendo e se você não for vacinado está se colocando em risco. Mas tenho amigos que não estão sendo vacinados e que estão lendo artigos nas redes sociais sobre como, se você tomar uma vacina, existe um chip que entra em seu corpo. O que é loucura. E eu acho que as mídias sociais devem ser responsáveis ​​por tomar os cuidados necessários se estiverem cientes do impacto.

👩🏻‍💻 Você acha que as empresas devem ser responsabilizadas por esse tipo de impacto, ou é suficiente afirmar que o conteúdo (gerado pelo usuário) é a principal fonte de problemas que vão desde notícias falsas até ansiedade?

💡 Acho que, se elas estão cientes e tomaram uma decisão com base em fatos e dados, eles devem ser responsabilizadas.

Por exemplo, você abre um restaurante. E você está servindo frango e pode comprar frango pela metade do preço, mas há 5% de chance de envenenar seus clientes. E você compra o frango barato. Como dono do restaurante, você é responsável? Claro que sim.

Sobre previsões

👩🏻‍💻 Por fim: previsões. Quais são 3 coisas que você acredita que vamos ver nas redes sociais num futuro próximo, e coisas que você gostaria de ver?

💡 As previsões são mais fáceis. Para um futuro próximo, eu prevejo que:

  • acessaremos as redes sociais no mobile mais do que online;

  • compraremos diretamente pelas redes sociais mais do que pelo Google ou pela Amazon;

  • e as redes sociais estarão mais integradas a hardwares, como nossos telefones, nossos carros.. Começamos a ver isso acontecer com o Apple Watch.

Agora sobre o que eu gostaria que acontecesse…

Eu gostaria que as empresas usassem o poder da tecnologia para otimizá-la para felicidade e proximidade. Não para dinheiro ou acionistas ou anunciantes ou para marketing. As empresas deveriam usar o poder da tecnologia para otimizá-la para felicidade e proximidade.

Eu gostaria que as pessoas pudessem se reunir em lugares autênticos, onde elas pudessem se expressar e ser quem são e se conectar umas com as outras. Lugares onde elas podem ser vulneráveis e abraçar o risco de ser vulneráveis, e tudo bem.

E a terceira coisa que eu adoraria ver são features que transcendem as nossas interações do online para o offline. Para que a gente passe mais tempo uns com os outros e compartilhe experiências.

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Final notes

Vamos encerrar essa edição especial por aqui, e semana que vem as outras seções e toda a nossa curadoria estarão de volta. Não é sempre que a gente conversa com um dos pioneiros da internet - mas se vocês tiverem outros executivos para me apresentar, vai que a carreira de entrevistadora decola? :)

Queria deixar um agradecimento especial para os assinantes que contribuíram com perguntas para a entrevista: Vera, Anna Beatriz, Mariana, Stephanie, Lorena, Marina e Joaquim. E também para a assessoria de imprensa do Orkut no Brasil que fez esse papo acontecer.

Espero que tenham gostado!

- Beatriz

PS: para falar direto comigo, use o botão “responder”, ou escreva para beatriz@bitstobrands.com

obrigada por ler até o final, e não esqueça de compartilhar :)

👩🏻‍💻 curadoria e textos por Beatriz Guarezi. estrategista de marcas, curadora de conteúdo e escritora de e-mails.

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