Bits to Brands #89 | Blackout - o que acontece depois da hashtag?

Tempo de leitura: 9 minutos

A nossa última edição foi enviada numa quinta-feira, sendo que aquela terça-feira tinha sido a tal "Blackout Tuesday" - dia em que inúmeras marcas e influenciadores no mundo todo silenciaram suas postagens normais e, ao invés disso, postaram a hashtag #blackouttuesday e uma tela preta.

Como não poderia deixar de ser, falamos sobre o fenômeno da semana, assim como tantas outras pessoas, empresas e publicações. Mas e depois? E agora, na verdade? Quais mudanças foram colocadas em prática? Quem foi de fato além do discurso?

Dois artigos de profissionais que eu respeito muito reforçam esse ponto de vista, este do Scott Galloway, e este do Tom Fishburne (cartunista autor da tirinha que ilustra essa edição).

Mas o que eu quero que você leia hoje são os pontos de vista de duas mulheres negras, profissionais de comunicação e assinantes da Bits to Brands - a Jéssika Elizandra e a Patrícia Gonçalves.

Essa edição vai ser mais longa que o normal para contemplar o máximo das ideias e experiência de ambas, que me tiraram completamente da zona de conforto e me fizeram refletir muito. Leia com atenção, e se permita fazer o mesmo por aí.

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Eu jamais diria nada como: "Ah, seria melhor que as marcas não comentassem ou não se posicionassem". A situação é tão calamitosa que é importante sim que todos se posicionem! Porém, eu, particularmente, fiquei incomodada com as manifestações de marcas na terça por duas razões.

1. Quantas das marcas que se posicionaram contratam pessoas negras?

A maioria não contrata ou tem uma ou duas pessoas negras num quadro de funcionários gigante de pessoas brancas. E não estou dizendo que não contratam porque são racistas necessariamente, mas sim porque em muitos casos não há reflexão e, mesmo quando há, é comum as pessoas não saberem como fazer.

A minha experiência de trabalho até hoje é trabalhando com relações públicas e comunicação em grandes ONG's e eu sempre era a única ou uma das únicas negras da equipe. Por quê? Porque apesar de ser negra, consegui estudar numa boa faculdade, sou bem articulada, comprometida, esforçada, então gero bons resultados... Enfim, porque sou classe média! Será que uma mulher negra que não foi para uma boa faculdade e não tenha as mesmas habilidades que eu custosamente construí estaria nesses ambientes?

Recentemente estava conversando com uma pessoa que tinha duas vagas em aberto para gestão de projetos e queria contratar mulheres negras e/ou periféricas, mas não estava conseguindo porque não encontrava mulheres nessas condições que tivessem os atributos que buscava. Mesmo quando as empresas buscam pessoas negras, elas exigem habilidades e experiências de pessoas brancas de classe média. A conta não fecha!

Pra mim, além das empresas precisarem ter planos claros de quanto do seu quadro de funcionários querem que seja ocupado por pessoas negras, precisam ter um plano para formar essas pessoas (seja pagando parte da faculdade, oferecendo um curso de inglês, seja o RH disponibilizando alguém para fazer processo de coaching com essa ou esse funcionário etc).

Isso começa na job description, quando você publica uma vaga. Se você quer contratar pessoas negras, precisa ter em mente que é bem possível que elas não tenham o mesmo nível educacional, experiências de viagens, milhares de cases no currículo, várias experiências em empresas super conhecidas... Não porque elas não sejam boas profissionais, mas porque as oportunidades que elas tiveram na vida são diferentes e fizeram-nas desenvolverem outras habilidades.

Por exemplo, quando eu trabalhei no Greenpeace, existia uma necessidade de comunicar-se com a classe C, porém, a maioria das pessoas que trabalham na organização não são dessa classe. Então, para as minhas vagas, eu queria pessoas negras e de classe C.

Para conseguir isso, eu não buscava necessariamente formação ou experiências que só uma pessoa de outra classe social teria, mas sim habilidades ligadas à criatividade, persistência, dedicação, queria alguém que falasse de uma forma muito simples (nossas audiências falavam assim!) etc. Eu, infelizmente, ainda precisava procurar por pessoas que estavam cursando uma faculdade pela questão de ser estágio, mas não buscava as faculdades mais conceituadas.

Entendo que esse processo é difícil, que a maioria das empresas não tem tempo, recursos ou até mesmo interesse em formar ninguém, mas, para mim, qualquer manifestação que não passe por repensar as contratações é apenas discurso. O discurso tem o seu papel? Tem! Mas é possível fazer bem mais do que isso.

2. Com tantos casos no Brasil, por que se manifestar só quando tem um caso nos Estados Unidos?

Gostaria de ver ações desse tipo o ano todo, porque razões para elas não faltam.

56,10% das pessoas declaram-se negras no Brasil, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua do IBGE. Se as marcas não dedicam-se a pensar nessa parcela da população por ser o certo (me dá arrepios pensar que esse argumento por si só não convence!), que pensem pelo menos por estratégia!

Não ter políticas voltadas para pessoas negras significa que provavelmente você não vai conseguir atingir mais de metade da população, simplesmente porque você não faz ideia de como se comunicar e oferecer produtos e serviços para ela, por ter uma realidade muito diferente da sua.

- por Jéssika Elizandra (LinkedIn)

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Algumas pessoas descobriram que as vidas negras importam através de uma hashtag, e tá tudo bem que ela seja levantada. No entanto, eu te pergunto: Quando a hashtag sumir dos “Assuntos do momento” no Twitter, da corrente do Instagram e dos milhares de posts por aí, como você continuará sendo antirracista? (...)

Primeiro, acho bem coerente dizer que: as manifestações nas redes são válidas, a questão é que em muitos momentos somos levados pelo efeito “manada” da própria rede. Em outras palavras, aquela pessoa que já foi racista de várias maneiras pode tranquilamente se esconder e se posicionar sobre o assunto por trás de um @ e, no dia a dia, não ser antirracista.

Essas são as pessoas que se incomodam com o posicionamento de alguém negro no seu ambiente de trabalho, ficam um pouco desajeitadas quando você conta uma conquista, duvidam que você já vivenciou algo como ela, só entendem e colocam você em narrativas de dor e sofrimento, ficam se desculpando o tempo todo por serem brancas, não fazem nada para mudar o cenário ao seu redor — por exemplo, pedir explicações do chefe do porquê no seu time não existem pessoas negras. (...)

Ser antirracista é mais do que compartilhar algo, você vai precisar fazer algumas coisas como: revisitar suas lembranças, seus pensamentos, suas ações e finalmente seus privilégios e se perguntar: "As pessoas negras estão ou estavam lá?” Se não, qual o esforço que você tem feito para que seja criado um novo imaginário?

Tendo isso em vista, proponho a você pessoa branca, que tem se comovido nesta semana, que nos assegure um lugar de poder e seja aliado para construir esses espaços. Como pessoa negra, eu gostaria de ver essas mesmas pessoas que compartilharam posts e colocaram hashtags mudando estruturas, revendo seus conceitos internamente, de uma maneira que vai doer muito, vai incomodar demais, mas que finalmente abale as estruturas de onde elas habitam. (...)

Precisamos do compromisso em mudar o cenário da sua rua, do seu prédio, do seu trabalho, do transporte público, das revistas, sites e livros que você lê. Que você não tenha medo quando um garoto negro passa ao seu lado, ou que quando alguém fale sobre uma mulher bonita, não pense no padrão branco.

Desejo que seus filhos cresçam com bonecas pretas, um super-herói preferido negro, leiam personagens como eu, conheçam a verdadeira história do Brasil e que tenham colegas pretinhos na escola.

Quero que você nos veja como artistas, médicos, designers, jornalistas, atletas, não só os que tenham notoriedade midiática ou ascensão. Necessito que quando você indicar alguém para o seu trabalho ali estejam pessoas negras: mães, gordas, periféricas, LGBTQI+, deficientes etc. Preciso que você refaça sua imaginação para nós não termos essa conversa novamente. (...)

Todos os dias, quando eu saio de casa, eu tento me proteger mentalmente do racismo que vou sofrer, mas hoje eu quero saber: Depois das hashtags, posso contar com você para ser antirracista a cada passo que der? Espero que sim!

- por Patrícia Gonçalves (leia o artigo completo e deixe muitas palmas no Medium dela)

"As empresas precisam se tornar a mudança que elas estão postando sobre". As pessoas, também. Espero que essa newsletter tenha contribuído para isso de alguma forma.
Seguimos :)
- Beatriz

~ compartilhe essa edição ~

hoje, não por mim. mas pelo quanto a gente precisa ir além da hashtag, e refletir verdadeiramente sobre tudo. compartilhe com todas as pessoas que precisam abrir os olhos para essas questões.
ajude a disseminar ainda mais essas ideias :)

O grande evento de tecnologia, versão online
Se a Apple é a referência de eventos de lançamento graças aos clássicos keynotes do Steve Jobs, parece que a barra subiu um pouco. É o que está todo mundo comentando depois da apresentação que o Snapchat fez, abusando da realidade virtual justo neste momento em que tudo tem que ser virtual. Vale conferir.

Pode pedir pra sair
Foi basicamente o e-mail que a Netflix mandou para a sua base de usuários inativos, mas que estavam pagando assinatura. "A última coisa que a gente quer é que as pessoas paguem por algo que não estão usando". Contraditório, né? Analisando de perto, esses clientes não fazem tanta diferença no caixa da empresa. Mas a atitude fez muita.

Um dia do aplicativo, outro da pizzaria
O app de delivery Doordash estava colocando botões de "peça via Doordash" no do Google sem que os restaurantes soubessem. Esse dono de pizzaria percebeu quando começou a receber reclamações de que as pizzas que ele nem sabia que entregava, estavam chegando frias. Ele também percebeu que o Doordash estava vendendo as suas pizzas mais barato para as pessoas, do que pagava por elas no balcão dele. Então ele começou a pedir pizzas para si mesmo.
E tudo isso virou uma BAITA crítica ao modelo de delivery atual, que não é bom para o entregador, nem para o dono do restaurante e que a gente financia por não ter alternativas.

O rebranding da Heinz
Que é uma mudança pouco radical, mas muito efetiva. Essa é bem "branding raiz", e especial para os apreciadores do impacto de um bom trabalho de design na performance e sofisticação de uma marca. Recomendo a análise do Brand New.

como forma de contribuir ativamente para essa comunidade diversa e sempre antenada de mais de 7.000 profissionais, vamos passar a compartilhar vagas abertas por aqui.
se uma pessoa for recolocada graças a essa newsletter, já vai ter valido a pena.


Vagas abertas no time de marca de uma das marcas mais relevantes no Brasil hoje: a plataforma Me Poupe!

Não porque eu sou fã da Nathália Arcuri, mas porque o impacto do seu conteúdo na vida das pessoas é real e comprovado inúmeras vezes. E educação financeira de forma simples, clara e autêntica só vai se tornar mais necessária nos próximos tempos.

Você pode fazer parte desse time, que está procurando redatores, diretores de arte, designers, produtores e especialistas em conteúdo. E está priorizando a contratação de mulheres e negros que estejam desempregados no momento.

Se esse for o seu caso, as vagas estão disponíveis aqui, e ao aplicar pode colocar na observação que chegou via Bits to Brands. Como sempre, espero que isso faça diferença no processo :)
se você tem uma vaga na sua empresa e quer atrair profissionais de marketing, comunicação ou tecnologia de todo o Brasil que estão sempre bem informados, me mande um e-mail em beatriz@bitstobrands.com.

Hoje as dicas de livro e série se uniram numa seção só pois só existe uma dica possível: Little Fires Everywhere.

São oito episódios, disponíveis no Amazon Prime (que por sua vez dá 30 dias grátis, e você só vai precisar de DOIS para terminar essa série).

A série é estrelada e produzida por Reese Witherspoon e Kerry Washington que são, respectivamente, uma clássica housewife rica de subúrbio americano e uma artista independente, mãe solo e nômade.

É sobre o encontro dessas duas mulheres e o impacto nas suas famílias e na cidadezinha em que vivem. E sobre as mentiras que cada um dos personagens vai contando, que culminam no incêndio que abre e fecha a história.

É tão viciante quanto desconfortável, tão confusa quanto elucidativa.

E é também baseada no livro de Celeste Ng, de mesmo nome, e que igualmente vale ser lido. Se antes ou depois de assistir a série, depende de onde você prefere os spoilers..

para mais dicas:
todos os livros que já passaram pela Bits estão aqui, e a nossa estante coletiva está aqui

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