Bits to Brands #40 | O novo começo do Facebook

O novo começo do Facebook

Só se fala nele. Essa semana Zuckerberg atirou novidades para todos os lados, inspirado um pouco pelo Snapchat, um pouco pelo WeChat e um pouco pelo Tinder, e guiado pelo novo mantra do Facebook: "The Future is Private".

Dá para assistir os highlights aqui e entrar nos detalhes nos links ao final desse texto, e tenho certeza que você já ouviu falar desses lançamentos em outros canais. Então, quero deixar só um pouco da perspectiva marca-comportamento-ligação-de-pontos que é particular daqui, em três pontos principais:

1) Ninguém aguenta mais a timeline do Facebook. A do Instagram, olhe lá. Seja pelos anúncios, pelo conteúdo filtrado por algorítimos, pelo clima político pesadíssimo ou pelas imagens de "bom dia" da tia.. ela perdeu o sentido que tinha pra nossa geração, e nunca nem chegou a conquistar os "Z".

Nesse movimento, vem um Facebook mais focado em grupos e marketplaces e um Instagram que toma a frente na revolução do seu feed, com o experimento do fim dos likes.

Tirar a pressão por likes alivia a busca pela estética perfeita, que fez com que o nosso feed do Instagram deixasse de ser sobre fotos filtradas de sushi dos nossos amigos, e ficasse restrito a blogueiras bem editadas em lugares exóticos. Creio que seja um movimento para levar as pessoas de volta à timeline, postando mais e interagindo mais umas com as outras de forma mais autêntica e espontânea.

Se no fim do dia isso tiver um impacto positivo na nossa saúde mental, melhor ainda. Mas não acho que esse seja o objetivo principal.

2) O Facebook quer que você fique ali pra sempre. Outra questão que os lançamentos dessa semana buscam resolver é o fato de que (até agora) o Facebook detinha os aplicativos meio, mas não os aplicativos fim. Você fala com a pessoa da loja no Whatsapp, mas paga via PicPay. Você descobre uma promoção no Instagram, mas vai para o Google buscar o site da loja. Você procura o perfil da pessoa no Facebook, mas combina de sair no Tinder.

Com features aqui e ali, como compras dentro do Instagram e logística de envio dentro do Marketplace, o Facebook quer fornecer o ciclo completo de venda para todo tipo de negócio. Do anúncio ao pagamento.

Isso fora a integração dos aplicativos de messaging, o Watch coletivo e até o Facebook Dating, que querem oferecer mais opções de interação dentro dos ambientes controlados (e mo-ni-to-ra-dos) pelo Facebook. Ou seja, mais dados.

3) Será que dá pra confiar? Talvez eu seja cética. Talvez eu tenha passado os últimos meses lendo diversas notícias um tanto quanto controversas sobre o Facebook. Talvez seja a postura robótica e vazia de emoções do Mark Zuckerberg ao falar de privacidade e de comunidades. Ou talvez é a combinação de todas essas coisas que me leva a desconfiar muito mais do que confiar.

É fato que mesmo as mudanças sutis vão afetar o nosso comportamento digital, de compra e de interação radicalmente. E que nós dependemos profundamente dos serviços do Facebook para simplesmente boicotar.

Mas é preciso analisar tudo que vem de Zuckerberg para além do buzz, e pensar no longo prazo, no seu 'darkest side', nas mãos das piores pessoas. Porque a realidade é essa.

Que tipo de dados o Facebook passará a coletar através das nossas compras e interações mais intensas? No lugar do like, qual será a nova métrica que irá guiar os orçamentos milionários de marcas com influenciadores? Como ficará a influência social e política agora que não será mais na timeline, e sim em grupos fechados? A disseminação de fake news? Onde vai se dar o combate à desinformação, se as bolhas ficarão cada vez mais fechadas? Quando vamos poder controlar o uso e a disseminação dos nossos dados nas plataformas?

É esse o tipo de coisa que eu gostaria de ouvir do Zuckerberg. E não piadas robóticas ou promessas vazias sobre privacidade.


(Para se aprofundar no assunto:
- a descrição das novidades, diretamente do newsroom do Facebook
- essa análise mais cética, critica e muito bem fundamentada do UOL
- a reportagem da WIRED sobre os últimos 15 meses do Facebook, para entender o que nos trouxe até aqui
- os principais pontos da palestra do Roger McNamee, ex-mentor e atual crítico do Facebook, no SXSW desse ano)

Pra quem chegou agora, eu juro que no fundo sou otimista. Mas quando o assunto é Facebook, todo pé atrás é pouco.
- Beatriz
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~ somos MAIS DE MIL PESSOAS ~

a gente bateu a meta, e aí dobrou a meta, tudo entre uma edição e outra.

obrigada por construírem essa comunidade cada vez mais incrível comigo.
espero oferecer conteúdo que vale ser compartilhado a cada semana, cada vez mais <3

Os melhores links da semana


Como a Microsoft sobrevive a escândalos
Na semana em que a empresa atingiu o valor de 1 trilhão de dólares (marca já alcançada por Apple e Amazon), uma reflexão rápida sobre o seu approach a questões como privacidade e dados.

E por falar em Facebook..
Pra vocês entenderem um pouco da onde vem a minha desconfiança, deem uma olhada no tipo de empresas que tem acesso a pools de dados que contém as nossas informações, e usam essas informações para anúncios.

Os cosméticos da Amazon
Cujas embalagens tem em letras maiores a substância, do que o nome do produto. Porque as pessoas buscam mais por "ácido hialurônico" e "vitamina C" do que "hidratante" ou "sérum". Baita case de construção de produto do online para o offline, e de volta para o online.

O desastre do Galaxy Fold, em dois links:
primeiro, a review pessimista da Joanna Stern, do WSJ, o vídeo que vale a pena ser visto sobre esse assunto.
segundo, a perspectiva mais otimista do colunista do Buzzfeed, Alex Kantrowitz.

Para o fim de semana

imagem de divulgação da palestra da Brené Brown no Netflix, que tem ela sorrindo e olhando para o horizonte, o logo da netflixe  o título do especial "Brené Brown - the call to courage"

Eu não sei como anda a lista do Netflix de vocês (a minha só aumenta), mas recomendo deixar esse conteúdo furar a fila.

Especialista em relações humanas e dona de um dos TEDs mais assistidos de todos os tempos, Brené Brown abriu o SXSW desse ano (com uma palestra maravilhosa, que inclusive comentei aqui) e agora está no Netflix.

Nessa talk, ela traz o que é (e o que não é) vulnerabilidade, por que todos nós invariavelmente temos que lidar com isso em algum momento, seu impacto na nossa vida e ambiente de trabalho, tudo isso ilustrado com a sua própria experiência pessoal e profissional.

São 1h30 extremamente transformadoras, e leves ao mesmo tempo, como só Brené Brown é capaz de proporcionar. Recomendo o combo assistir à talk e ler "A Coragem de Ser Imperfeito", e assim seguir a caminhada por uma vida em que somos cada vez mais nós mesmos, sem pedir desculpas por isso.